Ontem
(Revisado)
Autora: Carmem L. O.
Lima
Eu era criança e apenas sonhava.
Brincava de pega, amarelinha, quebra panela, baleado,
esconde, bola de gude e tantas outras coisas.
Subia em árvores frutíferas e saboreava seus frutos
suculentos. Era cajá, cajarana, carambola, goiaba, jabuticaba, laranja, mangas,
manguito, sapoti, siriguela, umbu e tantas outras.
Adorava brincar de esconder, fazia toca no bagaço da cana e nem
ligava para a coceira que depois dava.
Tomava caldo de cana, fazia puxa-puxa e depois comia com ela
ainda quente. Era uma farra.
Gostava da chuva no rosto e de arrancar macaxeira na terra
molhada e com seu cheiro agradável.
Ficava encantada com a horta e a diversidade das hortaliças
ali plantadas, cheirosa e saborosa na comida.
Ia buscar ovos nos esconderijos das galinhas a mando de Tia
Alice.
Andava pelo sítio escutando o barulho dos bichos nas folhas
secas. Era uma coragem sem coragem e encontros inesperados com cobras diversas,
aranhas caranguejeiras e tantos outros bichos da região.
Era prazeroso vencer o medo e descobrir novas formas de se
safar deles.
Amava andar a cavalo e na solidão escutar o silêncio do
vento e o seu efeito no canavial verdejante, montanha acima e abaixo. Parecia
um belo balé silencioso que a natureza me proporcionava com exclusividade.
Gostava do balanço na frente da casa da Júlia, com suas
cordas imensas amarradas nos galhos altos. Lá me desafiava a alcançar os galhos
mais altos com os pés e assim desafiava o perigo.
Lembro-me do primeiro picnic. Saímos de Pilões para Baía da
Traição. Vários carros dos Senhores de Engenhos. Balaios de frutas e muita
comida. Era Jipe com quatro portas, Rural e Caminhonetas. Deveria ter uns sete
anos. Jamais esqueci o sabor de tomar banho de mar chupando uma manga. A
mistura do sal com o sabor da manga doce nunca mais se repetiu como da 1ª vez.
Ficava temerosa quando, de férias, voltava ao engenho e no
caminho o ônibus subia a Serra do Espinho com a porta aberta para que, caso
derrapasse, a fuga fosse possível, para quem conseguisse sair.
Era uma aventura ir até a feira de Guarabira, com Tia Alice
e Tio Carrito, no inverso. A Rural deslizava no barro mais do que quiabo. Era
uma luta do motorista. Ele puxava a direção para um lado e o carro ia para o
outro, isso quando não atolava.
Adorava escutar as Histórias que meu amado pai contava sobre
a sua participação na 2ª Guerra Mundial, na Itália. Lembro que por volta dos nove
anos, quando ele chegava do trabalho, em Campina Grande, se deitava no sofá e eu
insistia para escutar suas histórias. Criança, não percebia o quanto, por vezes,
aquilo o emocionava e lhe trazia lembranças tristes.
Lembro-me da dedicação de minha mãe para com seus filho e filhas.
Passava o dia costurando, bordando, passando ferro, etc. Tudo para que saíssemos
arrumadas e na moda. Era impressionante a variedade de pontos nas toalhas de
banquete e no resultado final. Guardo uma delas, para mim a mais bonita.
Para que ficássemos na moda, minha mãe copiava discretamente
os modelos expostos nas vitrines das lojas. Sim, naquela época as lojas tinham
vitrines e ninguém quebrava o vidro para roubar. Assim andávamos na moda, que
nem gente rica.
Ansiava ir aos domingos tomar sorvete, antes do cinema, na Sorveteria
Florida, em Campina Grande. Lá encontrávamos papai. Ele fazia questão de mandar
trazer guaraná e sorvete. Era uma delicia.
O cinema era um caso a parte. Tínhamos um permanente emprestado
da querida Tia Marieta. Íamos sempre ao cinema com mamãe quando de menores.
Lembro que o hábito era ferrenho e que uma vez passou um trailer sobre um filme de guerra para a semana seguinte. Mamãe não
queria ir de jeito nenhum, mas, eu e Mª Edite, insistimos tanto que ela cedeu.
Resumindo: O filme se passava numa ilha onde só tinha homens. A luta era entre
americanos e japoneses. No final os japoneses matavam e torturavam todos os
americanos. O único sobrevivente eles cavaram um buraco, jogaram o cara dentro,
deixaram apenas a cabeça desenterrada e depois jogaram mel na cabeça do cara.
Ao redor do buraco havia diversos formigueiros. Mamãe quase nos matou por ter
assistido aquele filme horroroso e eu jamais dele esqueci.
E bom olhar o passado e ter orgulho dos pais. Pessoas
honestas, descentes, batalhadores e que ajudaram os filhos a serem pessoas
melhores, a construírem vidas independente, decente e com valores éticos.
Obrigado a meus amados pais (onde quer que estejam), irmãos,
além das Tias e Tios que facilitaram as nossas vidas.
Rio de Janeiro, 05/08/2012
– Revisto e modificado em 22/10/2012.
Autora: Carmem Lima

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