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Sou parte do Universo e muito menos que uma ínfima partícula, por menor que seja, portanto preciso me unir a muitas outras particulas, de preferência positivas e harmoniosas.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Ontem (Revisado) (O texto na integra)

Ontem (Revisado)
Autora: Carmem L. O. Lima
Eu era criança e apenas sonhava.
Brincava de pega, amarelinha, quebra panela, baleado, esconde, bola de gude e tantas outras coisas.
Subia em árvores frutíferas e saboreava seus frutos suculentos. Era cajá, cajarana, carambola, goiaba, jabuticaba, laranja, mangas, manguito, sapoti, siriguela, umbu e tantas outras.
Adorava brincar de esconder, fazia toca no bagaço da cana e nem ligava para a coceira que depois dava.
Tomava caldo de cana, fazia puxa-puxa e depois comia com ela ainda quente. Era uma farra.
Gostava da chuva no rosto e de arrancar macaxeira na terra molhada e com seu cheiro agradável.
Ficava encantada com a horta e a diversidade das hortaliças ali plantadas, cheirosa e saborosa na comida.
Ia buscar ovos nos esconderijos das galinhas a mando de Tia Alice.
Andava pelo sítio escutando o barulho dos bichos nas folhas secas. Era uma coragem sem coragem e encontros inesperados com cobras diversas, aranhas caranguejeiras e tantos outros bichos da região.
Era prazeroso vencer o medo e descobrir novas formas de se safar deles.
Amava andar a cavalo e na solidão escutar o silêncio do vento e o seu efeito no canavial verdejante, montanha acima e abaixo. Parecia um belo balé silencioso que a natureza me proporcionava com exclusividade.
Gostava do balanço na frente da casa da Júlia, com suas cordas imensas amarradas nos galhos altos. Lá me desafiava a alcançar os galhos mais altos com os pés e assim desafiava o perigo.
Lembro-me do primeiro picnic. Saímos de Pilões para Baía da Traição. Vários carros dos Senhores de Engenhos. Balaios de frutas e muita comida. Era Jipe com quatro portas, Rural e Caminhonetas. Deveria ter uns sete anos. Jamais esqueci o sabor de tomar banho de mar chupando uma manga. A mistura do sal com o sabor da manga doce nunca mais se repetiu como da 1ª vez.
Ficava temerosa quando, de férias, voltava ao engenho e no caminho o ônibus subia a Serra do Espinho com a porta aberta para que, caso derrapasse, a fuga fosse possível, para quem conseguisse sair.
Era uma aventura ir até a feira de Guarabira, com Tia Alice e Tio Carrito, no inverso. A Rural deslizava no barro mais do que quiabo. Era uma luta do motorista. Ele puxava a direção para um lado e o carro ia para o outro, isso quando não atolava.
Adorava escutar as Histórias que meu amado pai contava sobre a sua participação na 2ª Guerra Mundial, na Itália. Lembro que por volta dos nove anos, quando ele chegava do trabalho, em Campina Grande, se deitava no sofá e eu insistia para escutar suas histórias. Criança, não percebia o quanto, por vezes, aquilo o emocionava e lhe trazia lembranças tristes.
Lembro-me da dedicação de minha mãe para com seus filho e filhas. Passava o dia costurando, bordando, passando ferro, etc. Tudo para que saíssemos arrumadas e na moda. Era impressionante a variedade de pontos nas toalhas de banquete e no resultado final. Guardo uma delas, para mim a mais bonita.
Para que ficássemos na moda, minha mãe copiava discretamente os modelos expostos nas vitrines das lojas. Sim, naquela época as lojas tinham vitrines e ninguém quebrava o vidro para roubar. Assim andávamos na moda, que nem gente rica.
Ansiava ir aos domingos tomar sorvete, antes do cinema, na Sorveteria Florida, em Campina Grande. Lá encontrávamos papai. Ele fazia questão de mandar trazer guaraná e sorvete. Era uma delicia.
O cinema era um caso a parte. Tínhamos um permanente emprestado da querida Tia Marieta. Íamos sempre ao cinema com mamãe quando de menores. Lembro que o hábito era ferrenho e que uma vez passou um trailer sobre um filme de guerra para a semana seguinte. Mamãe não queria ir de jeito nenhum, mas, eu e Mª Edite, insistimos tanto que ela cedeu. Resumindo: O filme se passava numa ilha onde só tinha homens. A luta era entre americanos e japoneses. No final os japoneses matavam e torturavam todos os americanos. O único sobrevivente eles cavaram um buraco, jogaram o cara dentro, deixaram apenas a cabeça desenterrada e depois jogaram mel na cabeça do cara. Ao redor do buraco havia diversos formigueiros. Mamãe quase nos matou por ter assistido aquele filme horroroso e eu jamais dele esqueci.
E bom olhar o passado e ter orgulho dos pais. Pessoas honestas, descentes, batalhadores e que ajudaram os filhos a serem pessoas melhores, a construírem vidas independente, decente e com valores éticos.
Obrigado a meus amados pais (onde quer que estejam), irmãos, além das Tias e Tios que facilitaram as nossas vidas.
Rio de Janeiro, 05/08/2012 – Revisto e modificado em 22/10/2012.
Autora: Carmem Lima

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